quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Renuncias


Demorei muito para querer realmente limpar minhas gavetas, jogar o que não faz mais parte da minha vida e como é difícil chegar a este ponto, jogar o que não tem mais valor, me libertar de um passado de coisas e lembranças avelhentadas que hoje já não fazem mais parte de mim. E como é difícil desapegar das quinquilharias, seria porque ainda faço parte delas? não sei.
È incrível a facilidade que temos de unir objetos inanimados com sentimentos e se apoderar disto de tal forma que quando pensamos em nos desfazer nos sentimos presos e enfraquecidos.
È como se parte de nos fosse juntos para o cesto de lixo, quando na verdade só estamos limpando os espaços a fim de que novos acontecimentos possam tomar seu lugar neste novo momento de nossas vidas.
Para cada momento uma lembrança, então deveria ser assim.
Não deveríamos reunir os cacos de memórias em formas de pequenos papeis, bilhetes ou embrulho de bala, nossas estórias valem mais do que isto.
È isto que chamam processo do amadurecimento? talvez.
O fato é que estou de volta ao ponto de partida, e nada que marque meus momentos agora tem haver com o que já existiu na minha vida.
O bom tomou seu lugar nos sorrisos que dispenso involuntariamente perdida nas lembranças, o ruim impregnou-se no desenvolvimento e foi ele que me fez melhor e mas sagaz.
Não sou como á 15 anos atrás, sou um misto de melhor e pior do que poderia restar de cada acontecimento passado.
Os bilhetes e cartas fazem parte de outras estórias de outras pessoas que hoje já não existem mais, porque os outros também amadurecem e deixam para traz seus cabelos engraçados, seus antigos amores e rebeldias sem propósito.
Somos um pouco do que fomos e pensamos no decorrer de nossas vidas e talvez sejamos mais do que isto, talvez sejamos um coletivo de tantos outros bens que comportaram nossas biografias e que não podem ser guardados em caixas ou gavetas.
È estranho e bom ao mesmo tempo. É como se eu descesse as escadarias da minha vida para buscar lá em baixo (no meu calabouço imaginário) tudo que me lembrasse alguém ou algum lugar para me desfazer disto tudo e quando chegasse lá descobrisse que nada daquilo serve de ancora porque o que realmente tem que ficar esta dentro e não fora de mim.
Então crio asas, volto a mim mesma estou bem mais leve agora, sinto-me limpa e receptiva ao novo, quero me reinventar, criar um novo modelo de arquivo onde nunca mais precise reciclar.

(por Ivone Fonseca)

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